A missão no Kalunga

Escrito por Aline Sodre


O Povo Kalunga, em Goiás, forma a maior comunidade quilombola do Brasil. Localizado na região da Chapada dos Veadeiros, o território abrange os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. É um povo marcado pela preservação de sua cultura, tradições ancestrais, culinária simples e uma relação profunda com o cerrado — reconhecido como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural.

Foi para esse lugar que, em 2007, um grupo de doze pessoas da IBR (Igreja Batista Reviver) partiu em uma viagem missionária no mês de janeiro, bem no meio das férias. Éramos dez jovens, liderados por Ann e Bruce, um casal de missionários que caminhava conosco naquela época.



Ann e Bruce


O destino inicial era Teresina de Goiás, onde nos encontraríamos com uma igreja local, pastoreada pelo pastor Adonias, que nos aguardava. A viagem durou um dia inteiro. Foi longa, cansativa — e, ao mesmo tempo, cheia de expectativa e alegria.

Ao chegar, fomos acolhidos e divididos entre as casas dos irmãos da igreja. Nossa missão começaria no dia seguinte. Cada um de nós levou apenas uma mochila com seus pertences e uma rede, que seria nossa cama por quatro noites, armada entre árvores, no meio da mata.

Pastor Adonias e jovens da IBR

No dia seguinte, um domingo, acordamos cedo, tomamos um café simples e gostoso e seguimos para a igreja pastoreada pelo pastor Adonias, a Igreja Batista Ebenezer. Ali, dividimos o grupo para compartilhar a Palavra com adultos, jovens e crianças. Foi um tempo de comunhão, escuta e troca, em que cada um contribuiu com aquilo que tinha para oferecer.






À tarde, aproveitamos um tempo de descanso em uma cachoeira da região. Fizemos um churrasco, conversamos, rimos e recarregamos as energias depois da longa viagem. À noite, retornamos para a igreja e, em seguida, voltamos para as casas onde estávamos hospedados, nos preparando para o início da missão no dia seguinte.






Na manhã seguinte, arrumamos nossas mochilas, revisamos o teatro de fantoches que apresentaríamos às crianças da aldeia e, então, seguimos de caminhonete para o início da missão: evangelizar, por quatro dias, algumas casas localizadas dentro do território quilombola. Todos nós fomos na carroceria da caminhonete, debaixo de um sol intenso.




A trilha sonora daqueles dias era quase sempre a mesma. Cantávamos “Dia quente de sol” e repetíamos, em voz alta, o trecho que parecia descrever exatamente o que vivíamos: 
"Dia quente de sol, no calor do verão, eu vou de chapéu de couro, com minha Bíblia na mão Eu vou cumprir a missão, que Deus tem me ordenado. Eu vou pregar ao Sertão..."
E fazia sentido. O calor era forte, o sol castigava, e os dias eram realmente muito quentes.

Em um trecho do caminho, o pneu da caminhonete furou. Não havia ninguém por perto, nenhuma ajuda imediata. O pastor Adonias precisou ir até uma cidade próxima procurar um pneu. Enquanto isso, ficamos ali, no sol. Mas como éramos jovens, tudo virava festa — até o perrengue.




Quando finalmente chegamos ao Kalunga, fomos impactados pela simplicidade das casas, feitas de palha ou barro. Nossa missão ali era simples e profunda: conhecer as pessoas, passar tempo com elas, ouvir histórias, contar histórias para as crianças, cantar louvores e apresentar Cristo por meio de um teatro — no qual Pedro interpretava Jesus. Não apenas pelo cabelo, mas pelo desejo sincero de viver como Ele.








Durante o dia, fazíamos trilhas de uma casa a outra. Cada um carregava sua mochila, enquanto um burrinho levava panelas, mantimentos e tudo o que fosse possível (coitado!). Nosso guia era um rapaz chamado Marculino — prestativo, atencioso e sempre disposto a ajudar.





Na primeira noite, fomos tomar banho no rio. Durante aqueles dias, o rio seria nosso chuveiro e o mato, nosso banheiro. Enquanto entrávamos na água gelada, algumas crianças gritavam: “Cuidado com a sucuiu! Cuidado com a sucuiu!”. Perguntamos, inocentes, o que era “sucuiu”. A resposta veio rápida: “Sucuri”.
O banho não durou nem um minuto.

Na hora de dormir, armamos nossas redes entre as árvores. Estávamos exaustos. Algumas meninas preferiram dormir em barracas. Quando eu estava quase pegando no sono, os meninos me acordaram para avisar que vacas estavam passando bem ao lado. Depois disso, dormir virou missão impossível.

A rotina se repetia: visitávamos duas ou três casas por dia, e a última era escolhida para ficarmos mais tempo, compartilhar histórias e passar a noite.





Em uma dessas noites, o céu estava limpo e lindo. Um morador avisou: “Essa noite vai chover”. Não demos muita atenção e armamos as redes. Duas horas depois, a chuva caiu forte. Corremos todos para dentro de uma casa onde se faziam pães. Armamos as redes ali mesmo e tivemos a melhor noite de sono de toda a viagem: secos, protegidos e em paz.


As refeições eram simples e verdadeiras. O almoço misturava os mantimentos que levamos com galinhas preparadas na hora. Os lanches eram feitos com o que havia: biscoitos, mandioca, ovo ou o que estivesse disponível. Não havia espaço para frescura. Estávamos ali para viver como eles, caminhar com eles e aprender com eles.


Em outra noite, alguns meninos decidiram dormir dentro de uma casa de pau a pique, enquanto as meninas ficaram na cozinha de outra casa. No meio da madrugada, as meninas saíram correndo para as barracas por causa das baratas, e os meninos desmontaram tudo com medo de barbeiro. Mais um perrengue para a conta — e mais uma história para rir depois.



Foi uma viagem intensa e transformadora. Crescemos espiritualmente, conhecemos outras realidades, nos unimos mais como grupo e aprendemos, na prática, o que significa amar como Cristo ama.


Ao final da viagem, nos despedimos, tiramos muitas fotos para registrar tudo o que havíamos vivido e iniciamos o caminho de volta. Voltamos cansados, com o corpo pedindo descanso, mas com o coração cheio. Havia em nós um sentimento profundo de realização, alegria e gratidão — a certeza de que aquela missão havia sido significativa, tanto para o quilombo quanto para cada um de nós.








Foi um tempo muito bom.
Um tempo que marcou a nossa juventude — e revela, em muitos detalhes, quem o Pedro foi.




Quando retornamos à nossa igreja, vestimos as camisetas que haviam sido feitas especialmente para aquela missão. Diante da comunidade, compartilhamos um resumo de tudo o que vivemos: as histórias, os desafios, os aprendizados e as alegrias. Contamos o que vimos, o que sentimos e o que Deus fez ao longo daqueles dias. Também apresentamos o mesmo teatro que encenamos lá, levando para casa um pouco daquilo que o Kalunga nos ensinou.

 




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