A trilha dos tempos

Escrito por Ivo David


Um singelo começo.

Dezenove de Junho de 2014, começamos a nossa caminhada. Esta era uma aventura que o meu pai tinha idealizado. Ele queria fazer uma trilha comigo e o meu amigo de aventuras, o Pedro, como uma espécie de despedida minha. Em Setembro eu iria para Israel começar um novo capítulo da minha vida. Nesta época o Pedro continuava os seus longos estudos na UFMG e namorava a Erika, eu tinha acabado de terminar um relacionamento de 2 anos com a minha ex-namorada. Era um tempo de mudanças para mim, e mal sabia o Pedro, em breve também seria para ele também.

O início da caminhada.

Meses antes nós três tivemos um baita de um tapete puxado debaixo dos nossos pés. A gente compartilhava um sonho de subir o monte Aconcágua entre o Chile e a Argentina, a maior montanha das Américas. Eu e meu pai tínhamos nos preparado fisicamente com caminhadas e corridas intensas, o Pedro também fazia seus exercícios a meses. Trocávamos direto e reto mensagens com planos e achados de bons preços para equipamento. Infelizmente, o equipamento comprado, apesar de encomendado com muuuuuitos meses de antecedência chegou atrasado... e para piorar, quando chegou, chegou com defeitos jogando assim um balde de água fria (!) em nossos planos para subir o Aconcágua no início de 2014. Quando o equipamento finalmente chegou em ordem e parecia termos tudo que precisávamos, a janela de oportunidade já tinha passado. E, para ser sincero, dados todos os defeitos que tinham chegado na primeira leva de equipamentos, achamos prudente fazer uma aventura menor para testar tudo. Assim... casando a nossa enorme fome por aventura com esta pequena bolacha, trocamos nossos grandes planos de alta montanha para uma humilde trilha no norte de minas. Era um prêmio de consolação. Era uma despedida.

O Primeiro Dia.

Bem, a trilha começava jah tarde no ponto de trem antigo de um vilarejo chamado Rodeador localizado a oeste de Diamantina. O plano era chegar a pernadas em Barão de Guaiçuí e de lá ir de carro até Diamantina até o dia vinte um. Como a trilha começava tarde, o primeiro dia seria singelo. Tínhamos o equipamento e roupas preparados para coisas muito maiores, fizemos nossos humildes primeiros passos até a casa do Senhor João onde, se a minha memória não me falha, passariamos a nossa primeira noite.

Foi um dia curto. Na foto abaixo você verá o Pedro com equipamento preparado para escalar o Aconcágua à direita. E eu a esquerda com equipamento militar e um chapéu que comprei no Mercado das Bruxas (Bolívia) na viagem de 2011 que fiz com o Pedro.

Eu e o Pedro no primeiro dia.

Pôr do sol do primeiro dia.

O Segundo Dia.

Na manhã seguinte nos despedimos do Sr João e começamos a verdadeira batida de pernas. Acho que foi neste segundo dia que percebi o quão maravilhoso esta trilha seria com lindas paisagens e um ótimo tempo conversando com os meus dois companheiros de trilha. Processamos as mudanças, ouvimos os anseios uns dos outros, foi uma verdadeira oportunidade de conectar. Poucos detalhes concretos me restam na memória deste dia, mas uma alegria muito grande certamente me tomou que ao final do dia eu virei uma pulga eufórica zuando o grupo, rindo e curtindo enquanto armavamos e desarmavamos acampamento.

Neste dia foram 39 quilômetros andados, desde a fazenda do Senhor João até o nosso ponto de descanso no que chamamos de "o Acampamento da Árvore". Foi uma caminhada tão rica de paisagem, cachoeira e pontos preciosos do interior de Minas, inclusive a velha Escola Estadual de Conselheiro Mata e a Cachoeira dos Três Desejos.


Pedro, Ivo, Sr João & Delly.
Segundo dia de Caminhada.
Pedro admirando o horizonte.
Paisagens naturais.
Escola Estadual em Conselheiro Mata.
Cachoeira dos três desejos em Conselheiro Mata.


O último dia.

Não há muito que dizer do último dia. Acontece que eu e o Pedro tinhamos calculado as distancias errado antes da viagem e o segundo dia compensamos além do que era necessário ao ponto de fazer o último dia menos de 10km sendo assim uma caminhada muito mais fácil do que a do dia anterior. O que nós não sabíamos, porém, era a marca que aquela trilha, as conversas e companheirismo daquela experiência deixaria em nossas vidas. Foi ali, no ponto de trem antigo de Barão de Guaiçuí, que deixamos para trás a nossa última trilha. 

Acampamento da Árvore (a manhã do último dia).
Paisagem do último dia de trilha.
A estação de trem antigo de Barão de Guaiçuí.
A vista do carro nos levando para Diamantina.

O Sonho.

O Pedro nunca perdeu o sonho de subir o Aconcágua. Para mim e para o meu pai, o Aconcágua também continua um sonho elusivo. Se for nesta geração ou na próxima que esta sede encontrará a sua saciação, eu não sei. Mas, por agora eu me cabe celebrar a nossa singela última trilha no norte da nossa amada Minas.

A nossa última trilha.

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