Macarrao ala Pedro

 Adaptado do Audio do Marcus Rafael



Às vezes, eu me pego pensando naquelas tardes de sol na casa do Ivo, onde o tempo parecia passar em um ritmo diferente, ditado pelas risadas e pelo barulho de copos e pratos. Tem lembranças que a gente guarda não pelo evento em si, mas pela leveza que elas carregavam. E quando penso no Pedro, a imagem que me vem é sempre tingida por esse tom: o de uma alegria que não precisa de motivo para transbordar.

Naquele dia, a casa estava cheia. O pessoal da ABU tinha baixado por lá e a cozinha era o coração do caos. Eu e o Alan estávamos na linha de frente, pilotando um fogão que não parava, entre o vapor das panelas e o cheiro do molho à bolonhesa que ia tomando conta do ar. O desafio da vez era um panelão de espaguete, daqueles que parecem pesar uma tonelada quando estão cheios de água fervendo.


Eu estava ali, suando o rosto no vapor, precisando de um braço direito para escoar o macarrão sem causar um desastre, quando a porta se abriu e o Pedro entrou. Ele trazia aquela energia que parecia iluminar o corredor antes mesmo dele dizer um "oi". O Ivo, com seu jeito prático de sempre, nem deixou o cara pousar a mochila:

— Pedro, ajuda o Marcus aí!

O Pedro não hesitou. Aproximou-se com um sorriso de canto, todo solícito, como se estivesse pronto para uma missão de resgate.

— O que você manda, Marcus? O que o chef precisa?

— Cara, eu só preciso que você *vire o macarrão* — eu disse, apontando para a pia, esperando que ele simplesmente segurasse a alça da panela comigo.

Mas o Pedro nunca escolhe o caminho óbvio. Ele parou por um milésimo de segundo, os olhos brilharam com aquela faísca de improviso teatral, e ele decidiu levar as minhas palavras ao pé da letra.

— Na mesa ou na pia? — ele perguntou, com uma seriedade cômica.

— Na pia, Pedro!

Foi o que bastou. Em vez de se aproximar da panela, ele deu um salto coreografado, um movimento espalhafatoso em direção à cuba da pia. Ele se contorceu, os braços e pernas se enrolando como se ele mesmo estivesse se transformando em um fio de espaguete gigante prestes a mergulhar no escorredor. Ele quase se jogou dentro do ralo, entregando uma performance física digna de um palco profissional, tudo para ilustrar o que seria, na cabeça dele, "virar um macarrão".

Eu fiquei ali, parado, segurando o peso da panela e sentindo o calor do fogo, mas a única coisa que conseguia fazer era rir. A cozinha inteira parou por um instante. O Pedro não estava apenas ajudando no almoço; ele estava criando uma memória, transformando uma tarefa doméstica comum em um momento de pura genialidade caótica.

O macarrão acabou sendo servido e, honestamente, estava incrível. Mas o que realmente nos saciou naquela tarde foi o absurdo da cena. Olhar para trás hoje me traz um aperto bom no peito. Éramos nós, jovens, sem muitas preocupações além do ponto do cozimento e da próxima piada. O Pedro tem esse dom: ele não apenas habita um espaço, ele o transforma.

Hoje, toda vez que coloco uma panela de macarrão no fogo, eu sorrio sozinho. Lembro do "homem-espaguete" na pia do Ivo e percebo que a gente não vive apenas de comida, mas dessas histórias bobas que o tempo insiste em não apagar.

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