Machu Picchu, Avalanches e Amizade

Escrito por Ivo David





A aventura começou em 2011 com uma obsessão: a tal da "vitamina boliviana". Meus amigos tinham voltado da Bolívia e do Peru com a lenda urbana de uma bebida lendária — uma gororoba que, diziam, misturava ovo, cerveja, leite, abacate e qualquer fruta à mão. Eu insisti que tínhamos que provar.

Eu e Pedro nos enfiamos nas feiras mais esquisitas, nos cantos mais obscuros de Cusco, perguntando por vitaminas que não fossem as normais. Tínhamos o suco comum à nossa disposição, mas eu ansiava pela gororoba. E encontramos.

Em um canto que parecia ter saído de um filme, a bebida foi servida. Era exatamente como a lenda: densa, improvável e definitivamente perigosa. Tomamos o tal "elixir".

A tragédia, claro, não tardou a bater à porta.

O Delírio e a Lealdade

Pedro foi o primeiro a cair. No hotel, ele começou passar mal e a delirar, vendo "vultos" e descrevendo o ponto flutuantes como se fosse um portal interdimensional. Ele obsecou com o mitico "ponto que era nove". Eu tenho vídeos daquele dia – ele estava fora de si, mas incrivelmente engraçado, descrevendo aparições noturnas com detalhes sérios.

O problema era que havíamos agendado a trilha longa para Machu Picchu – a trilha de Potosí. Uma caminhada épica que exigia preparo. Com Pedro naquele estado, a data foi perdida. Meu coração apertou; viajamos até o Peru, e agora, por causa de uma mistura bizarra de leite e cerveja, perderíamos nosso destino. Mas a decisão foi simples: não o deixaria sozinho. Eu ficaria para cuidar dele.

O dono do hotel, vendo nossa frustração, veio com a salvação: "Tem uma versão mais curta, de tres dias. Liguem para a agência; vocês podem ir amanhã."

Mesmo esgotado e fraco, Pedro olhou para mim e disse: "Vamos. Vamos mesmo passando mal."

A Vitória da Avalanche



No dia seguinte, éramos dois fantasmas. O Pedro magro e dolorido se arrastando com uma mochila quase vasia. Enchi minha mochila com suas coisas para que ele pudesse aguentar a jornada. Fomos para a trilha, secos e sofrendo mas cheios de vontade e bom humor, fomos!

A trilha era maravilhosa, mas o momento que selou a experiência aconteceu quando paramos ao pé de uma montanha – o famoso monte Salcantay que da o nome da trilha. O guia nos contava que, historicamente, os Incas faziam sacrifícios no cume, e até hoje, os locais deixavam oferendas no sopé, pois a montanha era considerada "agressiva".

Mal ele terminou a frase, e o chão começou a tremer com um rugido.

Primeiro, era um som distante, um brrruum grave no fundo. O som cresceu, crescendo, até que avistamos: uma nuvem gigante, branca e veloz, descendo pela lateral da montanha. Era uma avalanche vindo em nossa direção.

O pânico foi geral. Os turistas correram para todos os lados. Eu, lembro-me, abracei as botas que tinha tirado, pensando em como não perdê-las no meio da neve.

E Pedro?

Pedro, o homem que estava delirando com "vultos" um dia antes, correu na direção da avalanche. Ele estava com sua câmera analógica, decidido a filmar o momento em que a montanha nos engoliria.

A sorte, ou a providência, agiu. A avalanche precisava subir um pequeno morro para nos atingir, e ali, ela perdeu a força. O que nos atingiu não foi o impacto destrutivo da neve e gelo, mas uma brisa gelada, uma nuvem fina. Ninguém se machucou.

Quando a poeira de neve assentou, o grupo estava em êxtase, batendo palmas, celebrando a sobrevivência. E Pedro tinha capturado o momento perfeito, correndo para dentro daquela nuvem branca.

O Presente do Atraso


Mais tarde, refleti sobre o que aconteceu. Perdemos o agendamento original por causa da vitamina. Atrasamos um dia. E foi exatamente por causa desse atraso que encontramos a avalanche. Se tivéssemos ido um dia antes ou um dia depois, não teríamos testemunhado aquele rugido da montanha.

Aquilo foi uma lição que levo comigo. No momento, o atraso, o mal-estar, a perda da trilha pareciam uma tragédia. Eu estava angustiado. Mas o que parecia uma perda se tornou uma bênção, um presente: uma vitória que nos uniu e nos deu uma história fantástica de sobrevivência.

A vida às vezes nos dá um passo para trás – um empecilho, um atraso, um dia ruim – e, no final, aquilo nos coloca no tempo exato de Deus, que é sempre melhor.

Anos depois, quando Pedro enfrentou o câncer pela primeira vez, eu enviei a ele uma carta com essa história, lembrando-o de que, às vezes, o que parece um atraso na vida, na verdade, é Deus apenas nos posicionando para maiores conquistas.

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