O jeito Pedro de entender o mundo

Escrito por Pabline Felix



Meu amigo Pedro era um cara muito único. Ao mesmo tempo em que era o mais inteligente, que já tinha lido pelo menos um pouquinho de tudo, que sabia em que quadra morava cada assunto, também era uma pessoa muito distraída. Tenho pra mim que a culpa é nossa: não é que ele era lerdo, a gente só não tinha conseguido explicar para ele – na língua dele – a lógica daquela determinada coisa. E eu tenho um exemplo. 


Eu frequentava uma igreja “diferentona”, que tinha como foco o trabalho com pessoas à margem da sociedade. Ela se chama Caverna de Adulão (e, enquanto escrevo esse texto, ainda existe) e tem origem ligada à tradição batista. O nome peculiar é uma referência à passagem bíblica que conta que Davi, fugindo do rei Saul, se esconde na “caverna de Adulão”. Ali se juntam a ele pessoas endividadas, aflitas e marginalizadas, formando o núcleo do seu grupo de seguidores. O episódio simboliza o recomeço de Davi, que sai da margem para se tornar rei.


Como eram poucas as igrejas diferentonas no Brasil, elas se uniam e faziam eventos para reunir seus participantes, promover um intercâmbio de conhecimento e usar aquilo que sabiam fazer de melhor para promover o Evangelho: maluquice. Foi assim que Rafa, Karin, Pedro e eu fomos parar em um congresso evangélico de arte lá em Vitória, no glorioso estado do Espírito Santo (veja que conveniente a alcunha do lugar como um todo quando em contexto de igreja). 


Viagem para lugar “próximo” e bando de estudantes jovens, vamos de ônibus mesmo (que saudade das minhas costas tão flexíveis!). Combinamos os quatro de que apenas um compraria as quatro passagens, para podermos garantir que ficaríamos em duas duplas de cadeira. O Pedro foi o responsável pela tarefa. Recebeu o dinheiro de cada uma, comprou tudo certo, passou os dados da viagem dia-horário-cadeiras, avisou que tava com tudo em mãos pelo Messenger do Facebook (que era a rede social que a gente mais usava na época). Tudo certo. 


No dia da tal viagem, combinamos de chegar tipo meia hora antes do horário de embarque. Chegamos nós três e – cadê o Pedro? Logo ele que sempre foi pontual. Cinco, dez, quinze minutos. Nada. Vinte. E ele com as passagens. Mandamos mensagem no Facebook. Ele respondeu com algo tipo “já tô chegando, mas não precisa estressar, esse é só o horário de embarque, não de saída”. Nós três nos olhamos, tentando entender o que ele queria dizer com aquela mensagem. Logo alguém deu a letra: ele tava achando que embarque de ônibus era igual embarque de avião – um intervalo de tempo, e não um horário fixo. Respondemos avisando que, para ônibus, o horário de embarque era o mesmo de saída, então se o busão saísse sem a gente no tal horário, a gente teria que comprar quatro novas passagens. Ele não respondeu e logo a gente entendeu porquê. Chegou faltando dois minutos completamente esbaforido porque tinha descido do táxi onde deu e vindo correndo pra plataforma. 


Deixamos pra rir da situação já acomodados em nossas poltronas e concluímos que não era o Pedro que estava errado, era quem chamou dois processos diferentes pelo mesmo nome. 

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