Aprendendo a Existir

Escrito por Pedro Lança



A monotonia do habitual sempre foi uma sentença de tédio inaceitável. Todo mundo fazia igual, vivia igual, e riam das mesmas coisas. Que mundo patético! Felicidade não deveria ter rótulo ou receita. Não é algo que se cria, mas que por vezes se encontra, sem querer, e vive sem precisar explicar.


“Pedro, traz a guitarra e o amplificador?” - era uma tarde bem quente. Obviamente decidimos aproveita-la dentro de uma garagem abandonada. Um galpão de concreto sem acabamento, cuja única janela, minúscula, não abria há 15 anos. A porta de ferro emperrava e o telhado de amianto dava um toque vulcânico na temperatura. Lá montei minha bateria acústica, com seus pratos amassados e baquetas 2b. Pedro chegou com seu Opala, cujo motor era nosso prelúdio. Montamos ali o pior estúdio do mundo, com uma acústica de dar inveja na gruta de Maquiné.


“Vamo lá?” - a música então preencheu aquele pequeno espaço, reverberando infinitamente entre os tímpanos. Vibrava tudo, o chão sumia, e o tempo perdia o ritmo. Não tinha começo, não tinha fim, e nunca se repetia, como uma boa e longa conversa entre velhos amigos. Anoiteceu e paramos. Comemos alguma bobagem e nos despedimos berrando - felizes e surdos!


Em um dos nossos encontros musicais, veio alguém meio perdido no mundo, por isso outro bom amigo. O nome dele era Asa. Pedro tovou meu violão canhoto, eu fiquei no piano, e o Asa fazia críticas aristotélicas existenciais. Essas eram por vezes intercaladas com interrupções nos arranjos para suas piadas, meticulosamente planejadas em seu horrível senso de humor. Ganhava uns murros de vez em quando. Nunca perderam a graça que jamais tiveram, por isso ainda hoje me fazem sorrir!


Naquele dia terminamos um pouco frustrados e com fome. Fomos então para a cozinha e a não linearidade virou receita. Criamos um abominável prato misturando absolutamente tudo o que pareceu comestível. Ninguém anotou, mas tenho alguma lembrança do Asa e o Pedro salpicando carne batida com flocos de chocolate amargo, gema de ovo guardada e pimenta calabresa. Batizamos como “Chorume do Dragão”. Comemos. Já não lembro o que veio depois.


Muito tempo se passou e os caminhos passaram a se cruzar menos. Aquelas longas conversas faziam muita falta. Depois de um dia bem amargo, sem saber o que fazer, resolvi tentar dizer alguma coisa e publiquei umn texto na rede social. Um grito no abismo. Veio então, no dia seguinte, o seu eco! Como é difícil alguma sincronia nessa vida que não tenha roteiros. Traz ela, em meio ao desgosto e sofrimento, a pura e singela esperança. O Pedro sempre esteve lá.


“No silêncio, as palavras brotam como gama cinza. Uma após uma, nascendo sem sentido, crescendo sem rumo, morrendo sem história. Sem flor, sem cor, sem vida, vão-se todas as raízes: esmorecem ao sol escaldante da ignorância. São como as ondas do mar, que crescem, quebram e partem, daqui para nunca mais. Cansam o próprio tempo, perdem a razão. Já se foram os momentos, já se foram os sorrisos, já se foram os sonhos. Fica o silêncio.” - Pedro Lança.


“Mas mesmo nessa confusão de sons que envolve o silêncio, vez ou outra, na estação certa, sopra uma brisa úmida de esperança e raios do sol se inclinam despertando a vida. E as palavras que antes não tinham propósito agora tem um novo vigor e servem de alimento, formam tramas que se estendem por dimensões, antes, inalcançáveis, aprofundam-se as raízes que bebem águas fora das fontes do tempo. Nasce a poesia.” - Pedro Augusto.


(Baseado em vivencias entre os anos de 2010 e 2012.)

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